sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

LETRAS MORTAS E VISÕES

O teatro sempre foi visual. Do lugar à letra dos textos, a necessidade do espectáculo impôs as suas regras e fácil é, hoje, admitir os infinitos modos de pensar as estratégias cénicas que permitam um ainda melhor relacionamento dos públicos com a arte teatral. A nossa contemporaneidade trouxe à cena muitos novos instrumentos de aparato e com eles há muitos criadores que se bastam na concepção das suas aventuras. Convocam técnicas e soluções plásticas e com elas decidem quase tudo, determinando as vias do espectáculo e fazendo crer que as personagens, se existem, não devem ser mais do que uns manequins, criaturas esvaziadas de alma e sentimentos, pulsando, sim, e dizendo uns textos, mas dentro de uma máquina cénica da qual dependem em absoluto. Neste modelo, as personagens - e por força da sua presença, as actrizes e os actores – distribuem-se no espaço que será necessário ocupar, movimentam-se, se for o caso, e mesmo que estejam ao centro nunca deixarão de ser periféricas. Um teatro ilustrativo deste género não deve convencer-nos, a nós que gostamos de pessoas agindo neste mundo com as suas palavras carregadas ou vazias de sentido. Não podemos dizer que o diálogo está no miolo da comunicação e dos afazeres, mas certamente que dedicamos um tempo precioso das nossas vidas a dialogar com os outros e até mesmo connosco.

Ora, do que nós precisamos no teatro é que a humanidade das personagens retome o seu elevado estatuto e que exerça o fascínio que desde sempre cativou quem se destina a ser o público. É um lugar-comum dizê-lo, mas sou dos que vão pensando que uma palavra vale mil imagens. E mais, muito mais do que podemos suspeitar. Afinal, a brincadeira de juntar letras e escrever palavras, sendo um jogo antigo, pode criar e destruir o mundo. As palavras são veículos, sim, e alimentam-se entre si de mágicas poderosas de que não chegaremos a intuir o mistério. Habitamos o mundo e o tempo com a palavra e continuamos humanos por causa das imperfeições que nos acompanham, e nisto, o teatro é o lugar cimeiro de reconhecimento.

Enquanto não é lida nem vivida, a letra dos textos para o teatro é coisa morta, e um texto dito que não seja devidamente possuído por quem se atreve a mostrá-lo em cena não ganhará o relevo que é necessário para evidenciar a importância da palavra, mesmo que o brilho de muitas palavras no teatro seja tantas vezes baço. Há que resistir com a palavra, com o diálogo, e continuar a realizar acções teatrais com o que as personagens dizem e fazem, mais do que com a vontade e o interesse do autor. Bom será, então, escrever procurando traduzir os estados de alma dessas criaturas virtuais que são as personagens. Os sinais exteriores dos seus movimentos são, obviamente, importantes, mas devem sujeitar-se aos sinais interiores, à onda íntima que prevalece na afirmação das suas singularidades e que dependerá depois, muitíssimo, da arte do actor.

Podemos realizar inúmeras acções com palavrinhas mortas, inscritas na página, e é o movimento organizado na combinação das palavras, com os sentidos explícitos ou intuídos, que promove a acção. E tudo acabará por ser um jogo de interesses: o primeiro interesse, o do autor, entendendo-se com o que quer escrever; o interesse do encenador, dos actores, dos produtores, que hão-de viver, ou não, o entusiasmo de um texto; e o interesse do público, que estará, ou não, disponível para se deixar levar na onda teatral.

Não nos livramos, no teatro, da necessidade do espectáculo, de apresentar as visões que poderão estar até adormecidas num texto, e para exigirmos ao público que saiba escutar e acompanhar as nossas aventuras, temos, sem dúvida, de propor o melhor de que somos capazes, interessando-nos primeiro com as nossas escolhas, e interessando os outros, depois. Uma escolha pode demorar tempo, ou não, e é a escolha que determina o aperfeiçoamento. Sempre temos de aprender a escolher, sempre estamos escolhendo, sempre decidindo, e sempre somos avaliados nas nossas visões.

Na época que temos aí, o teatro, uma vez mais, pode ser um respiradouro para soluções e alegrias, não milagres, e, por isso, todos somos bem-vindos à possibilidade de escrevermos as histórias que podem esclarecer e animar a vidinha que vamos levando e, até, mudando-a no que for possível. Quando escrevemos, as letras estão vivas; morrem ao cristalizarem na página; e renascem, no teatro, com a competência dos actores. É isto, simplesmente. Talvez como na arte do chá. A natureza não faz nada pela arte. Achamos nós que faz. A natureza, o cosmo, oferece a matéria, mas a arte é invenção humana. Depende sempre de nós, e até porque o público a quem se destina a arte... somos nós.

Teremos as nossas utopias quando escrevemos. Diante das letras mortas, espera-se que outros tenham também as suas visões.


Teatro Circo, Braga, 8 de Fevereiro de 2011

Abel Neves

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